“Do guardião ao prisioneiro”: o crime como sintoma institucional: entre a patologia do trabalho e o colapso ético.

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ESP-MG

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O presente trabalho analisa o fenômeno da transição de papel do Policial Penal, da condição de agente da lei à de custodiado do Estado, “com foco nos aspectos organizacionais e processos de subjetivação vivenciados pelo policial desde o seu ingresso no cargo até o cometimento de um crime”. O objetivo central é investigar, a partir de um relato de experiência da prática psicológica no sistema prisional mineiro, como o processo de prisionização e o adoecimento psíquico decorrente da atividade laboral podem contribuir para o desvio de conduta, configurando-o como uma manifestação sintomática do colapso da identidade profissional, sem, contudo, eximir o profissional de sua responsabilidade ética. A metodologia adotada é de natureza qualitativa e analítico-descritiva, pautada na sistematização de registros profissionais e na memória clínica de atendimentos realizados a este público. A fundamentação teórica ancora-se nos conceitos de "instituições totais" e "mutilação do eu" de Erving Goffman, no fenômeno da "prisionização" de Donald Clemmer e na abordagem Psicodinâmica do Trabalho de Christophe Dejours. A análise discute como o ambiente carcerário, marcado pela superlotação e precariedade, impõe ao policial, ainda no papel de servidor, um "sofrimento ético" profundo, resultante do hiato entre o trabalho prescrito pelas normas e o trabalho real necessário para a manutenção da ordem. Evidencia-se que o policial, imerso em uma "zona cinzenta", internaliza a cultura prisional e desenvolve estratégias defensivas, que podem conduzir à alienação e ao subsequente desvio ético-criminal, vindo a ocupar o papel de pessoa privada de liberdade, o qual representava, antes, o seu objeto de trabalho, ou seja, o “outro lado”. Os resultados ilustram processos de despersonalização, o uso da violência como resposta desajustada ao estresse crônico e a hipervigilância patológica. Conclui-se que o crime no exercício da função manifesta-se como sintoma de uma estrutura laboral patogênica. Ressalta-se a urgência de uma mudança de paradigma institucional que priorize a saúde mental, o fortalecimento do gênero profissional e uma formação técnica que transcenda a lógica militarizada, visando preservar a integridade ética e psíquica dos servidores.

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