O mal-estar de Dona Ana e sua família branca: questões de gênero e raça na saúde mental brasileira.

Carregando...
Imagem de Miniatura

Data

Título da Revista

ISSN da Revista

Título de Volume

Editor

ESP-MG

Resumo

Este ensaio aborda a relação racismo e saúde mental nas políticas públicas brasileiras. Minha escrita se dá a partir de fragmentos da história de Dona Ana, fruto de conhecimento pessoal, atrelada às vivências da minha prática profissional na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de Sete Lagoas, Minas Gerais. Dona Ana, mulher preta nascida no século XIX, traz em sua trajetória vivências marcadas pelo racismo, segregação e subjugamentos; e sua família descendente carrega, hoje, as marcas da política do embranquecimento e do mito da democracia racial brasileira. Abordo diversas situações em que o racismo e a discriminação aparecem nos serviços de saúde mental, seus impactos na subjetividade do povo preto brasileiro e possíveis saídas para tal imbróglio. Escrevo sobre a naturalização da violência contra a população negra, a política de embranquecimento da população criada no período colonial, a tentativa de apagamento da mulher preta brasileira e seus impactos no (des)acesso aos serviços de saúde pública no País. Eu, enquanto mulher branca e trabalhadora de saúde da rede pública, me alio às causas antirracistas, buscando minimizar as discriminações interseccionais, que mantêm desigualdades e iniquidades presentes nesse acesso. Utilizo a fabulação crítica, metodologia de Saidiya Hartman (2021), na tentativa de (re)construir a narrativa de vidas esquecidas e desvalorizadas por um sistema cruel, segregador, racista e misógino. Para enfrentar o racismo, é preciso desenvolver ações macro e micropolíticas, sendo o nosso cotidiano repleto de exemplos que, infelizmente, se repetem ainda hoje. É um desafio pautar o tema, criar condições para o debate, renomear os eventos e implicar as pessoas envolvidas em crimes de discriminação racial. A Reforma Psiquiátrica Brasileira não ficou imune ao racismo estrutural perpetuado no País. Sustentamos os privilégios da branquitude mantendo as temáticas de raça e gênero como tabus. A população preta brasileira permanece, ainda hoje, dentro dos pequenos manicômios reproduzidos em nossas políticas e práticas de cuidado em saúde mental. Defendo que aconteça uma reforma psiquiátrica dentro de cada um de nós, nas cidades, na resistência e na militância; em prol da efetivação dos direitos de todo e qualquer cidadão, em prol da equidade. Precisamos recuperar e restituir não só histórias desvalidas, sujeitos destituídos de ir e vir, destituídos da vida, mas o principal: ressignificar nossas práticas estruturalmente excludentes, totalitárias e racistas.

Descrição

Monografia

Citação

Avaliação

Revisão

Suplementado Por

Referenciado Por